Afastado da Rede Globo após quase uma década de trabalho, um dos mais conhecidos comentaristas políticos do país analisa a chamada “crise do mensalão” e avalia que a imprensa foi longe demais no episódio. “Parte da direção do PT cometeu erros e crimes, mas não havia o mensalão”, diz.

Gilberto Maringoni – Carta Maior

SÃO PAULO – Há trinta anos, não havia Franklin Martins. Existia Luís Antonio Tovar, sujeito que fazia de tudo para passar desapercebido por onde andasse. A tarefa era um tanto difícil, pois era duro disfarçar seus mais de 1,90 m de altura e um gesticular largo a sublinhar cada frase proferida. Como dirigente de uma organização clandestina, Tovar vivia em um bairro operário da zona norte de São Paulo.

Os textos de sua autoria, editados em pequenas publicações clandestinas, como “Unidade Proletária” e Brasil Socialista”, destacavam-se por evitar o fraseado característico da esquerda. Tinham humor e estilo. No currículo do autor, havia uma curta passagem pela imprensa e um mergulho na militância revolucionária, após 1966. A dedicação levou-o a fundar uma dissidência do Partido Comunista Brasileiro – o MR 8 –, a ser um dos líderes da passeata dos 100 mil, em 1968, no Rio de Janeiro, e a participar do seqüestro do embaixador dos EUA, Charles Burke Elbrick, em 1969. Após um longo período de exílio e clandestinidade, Franklin Martins abandonou o nome frio, voltou à vida legal e iniciou uma destacada carreira na imprensa.

Mesmo que quisesse, Franklin jamais conseguiria voltar a ser Tovar. Não haveria como disfarçar um dos rostos mais conhecidos do jornalismo brasileiro para os rigores de uma hipotética clandestinidade.

Aos 57 anos, este capixaba criado no Rio de Janeiro enfrentou mais uma batalha. Acusado por Diogo Manardi, colunista de “Veja”, de ter favorecido familiares junto ao governo, por conta de sua influência, Franklin Martins fez um desafio público ao acusador, pedindo provas de tais atos. Apesar de não ter obtido resposta, Franklin, ao mesmo tempo, não teve renovado seu contrato de comentarista político na Rede Globo. “Até hoje não conheço as razões de tal fato”, alega ele.

Pouco antes de sua estréia no jornalismo da Rede Bandeirantes, Franklin Martins concedeu a seguinte entrevista à CARTA MAIOR.

CM – Seu texto de estréia no jornalismo teve imensa repercussão. Foi o manifesto dos seqüestradores do embaixador norte-americano, em 1969. Hoje o senhor obtém repercussão nacional de outra maneira. Qual foi seu caminho de lá até aqui?

FM – Eu comecei no jornalismo bem antes disso, aos 15 anos de idade. Trabalhei na “Última Hora”, na “Manchete”, na “Interpress”. Quando entrei para a atividade política, eu já tinha uns dois ou três anos de jornalismo. Depois, com a militância, fui para a clandestinidade, exílio etc. Evidentemente me afastei dos jornais, revistas e televisão, mas continuei fazendo imprensa clandestina, jornais de resistência e revolucionários. Ou seja, continuei na imprensa. Quando veio a anistia, eu tentei retomar minhas atividades e fiz uma opção. A partir de 1982, decidi não ficar no gueto. Não quis trabalhar na imprensa alternativa, conversando e trocando figurinhas com meu grupinho, ou entrar para a universidade. Eu queria ir para a grande imprensa. Demorei muito. Só em 1985 fui para o “JB”, após uma curta passagem por “O Globo”.

CM – O que quer dizer “disputar espaço na grande imprensa”? É espaço pessoal, político ou o quê?

FM – Eu não acho que a grande imprensa seja uma instituição já estruturada, com princípio, meio e fim. Não. Há uma disputa diária entre os jornalistas pela percepção das coisas, sobre qual é a notícia, como deve ser dada, o que significa e como se interpreta. Evidentemente existe a linha editorial do dono.

CM – O senhor não acha, como dizia Leonel Brizola, que a grande imprensa tornou-se um grande partido único?

FM – Não, porque não existe espaço no Brasil para uma imprensa partidarizada. Somos uma sociedade extremamente complexa. A indústria de informação se transformou numa indústria pesada e cara. Para se manter, ela precisa atingir um público amplo e plural. Até os anos 1950-60, a cobertura era extremamente partidarizada. Pegue a eleição do Getúlio, por exemplo…

CM – Sim, mas existia, de um lado, a “Última Hora” e, de outro, a “Tribuna da Imprensa”.

FM – É verdade, mas todos eram partidarizados. Acontece que eram jornais com tiragens entre 50 e 70 mil exemplares. Hoje, um jornal precisa tirar 200 mil para se manter num grande centro. Para alcançar essa tiragem, ele precisa atingir um público plural. “O Estado de S. Paulo”, por exemplo, ou a “Folha”, têm leitores petistas, peemedebistas, tucanos, pefelistas, malufistas, gente que não é de partido ou que não gosta de política. Tem de tudo. Se ficarem agredindo uma parte de seus leitores, perdem público.

CM – O senhor não acha que em situações de tensão, como a crise do PT, ou durante o governo FHC, a mídia atuou em bloco?

FM – O que acontece é o seguinte: a mídia impressa se dirige majoritariamente para a classe média. Se a classe média fechar com alguma coisa, a mídia tende a fechar, porque o público dela, plural, está fechado com isso. Os exemplos que você dá são momentos de aspiração nacional, como nas diretas. Na eleição de 1994, o grande erro do PT (e do Lula) foi não perceber a existência de uma aspiração nacional pelo fim da inflação e pela estabilidade econômica. Quando Fernando Henrique é indicado Ministro da Fazenda e lança o Plano Real, é eleito com o pé nas costas. O que acontece em 2002? O país queria voltar a crescer. A moeda fora estabilizada, mas o câmbio fixo estrangulava o crescimento. Quem trazia a mensagem de crescimento e investimento social era o Lula. Em outras palavras, quero dizer o seguinte: em 1994, Lula perde a eleição e o discurso. Em 1998, FHC se elege em cima do medo da classe média com a perda da estabilidade. Lula perde novamente nas urnas, mas ganha politicamente, pois 15 dias após a posse de FHC, o Real é desvalorizado.

CM – Em 1989, a mídia, em sua maior parte, apostou em Collor de Mello, um aventureiro, na tentativa de evitar Lula…

FM – Uma inflação de 85% ao mês é que abre espaço para todo tipo de aventureiro. Abriu para o Collor, assim como, no final dos anos 1920, abriu para o cabo Hitler. A base social de Collor era o desespero e a vontade de que alguém colocasse ordem na situação.

CM – Qual sua avaliação sobre a cobertura da mídia no chamado “escândalo do mensalão”?

FM – Foi boa no início do processo. Se não fosse a cobertura, não existiria Roberto Jefferson e todos os outros personagens. Até agosto, setembro, a cobertura foi boa. A partir desse ponto, a imprensa parou de investigar e passou a comer na mão dos deputados e senadores, afogando-se em denúncias e mais denúncias que não se sustentavam por mais de 48 horas cada uma. A mídia será julgada por essa cobertura. Ela teve muitos problemas. O primeiro foi tratar a questão como semelhante ao escândalo Collor-PC Farias. Não era. Foi uma cobertura extremamente difícil. A direção do PT cometeu erros e crimes nesse processo. Os crimes são claros: caixa 2 e compra de apoio no Congresso para a composição de maioria. Se não cometeu crime de corrupção, é porque não teve tempo, pois estava tudo armado. É como um avião na pista, com turbinas ligadas, taxiando na pista, pronto para decolar. Na última hora, não conseguiu. Os crimes cometidos não são novos na vida republicana. Qual o problema? É que o PT prometia uma renovação, um outro padrão de conduta política e acabou decepcionando seu próprio eleitorado. Não falo de todo o PT, mas de uma parte significativa.

CM – E nisso, como a imprensa agiu?

FM – Durante quatro ou cinco meses houve uma intensa campanha de desmoralização do PT; a oposição atacava e o partido não se defendia. A oposição acusava o PT de tudo e no plenário da Câmara tinha sempre dez deputados petistas chorando. Não havia resposta, não havia, por isso, “o outro lado da questão” na imprensa. A resposta foi ruim e o governo absteve-se de fazer luta política.

CM – Nem mesmo na cobertura das CPIs havia contraponto?

FM – Essas foram as primeiras CPIs cobertas em tempo real, sem mediação de jornalistas. Aí se viam coisas como o Duda Mendonça dizer, ao vivo para todo o país, que recebera dinheiro no exterior porque o PT assim exigira. Depois, só depois, se descobriu o óbvio: ele recebia assim havia muito, desde o tempo em que trabalhava para Paulo Maluf. E a oposição espetacularizava as acusações. Até setembro, outubro o clima era de absoluta perplexidade. Depois ficou evidente que a oposição não estava interessada em descobrir a verdade dos fatos, mas em propagar coisas como “estamos diante do maior escândalo de corrupção da história!” Não se conseguiu provar isso e nem a tese da corrupção sistêmica. Não existia no governo uma espécie de comitê central da corrupção, como havia no governo Collor. Cada um foi fazer sua jogada particular. As divisões internas ao governo impediram que vários negócios desse tipo prosperassem. Havia sim uma quadrilha, mas não o mensalão, entendido como pagamento regular a determinados parlamentares. Houve compra de apoio político de chefes partidários, através de doações clandestinas a gente como Valdemar da Costa Neto e José Janene, que ficaram com o dinheiro. Para onde foram esses recursos, eu não sei. Acredito que destinou-se à composição de maioria parlamentar, através de mudanças de partido. A CPI, por exemplo, não chamou os deputados que trocaram de partido, para esmiuçar a questão. Portanto, não se investigou a origem e o destino do dinheiro.

CM – Além de “maior escândalo de corrupção”, havia a história de se Lula sabia ou não…

FM – Olha, nesse caso, eu uso o exemplo do pai que pergunta para a mãe sobre a filha. A mãe responde: “Ela está com o namorado, trancada no quarto há horas e não quer sair”. O pai sabe exatamente o que se passa lá dentro? Não, mas pode supor. Com Lula aconteceu parecido…

CM – Que órgãos o senhor avalia que fizeram a cobertura mais problemática?

FM – A imprensa foi longe demais e ninguém foi mais do que a “Veja”. Publicaram coisas gravíssimas sem qualquer prova, como os casos dos dólares de Cuba ou das contas externas de membros do governo. Depois sentaram em cima do assunto, como se não fosse com eles. A “Veja” pagará o preço pela perda de credibilidade. Não entendo até agora porque a “Veja” faz isso com a “Veja”. Vai levar muito tempo para que ela recupere a credibilidade. Fizeram várias denúncias sem qualquer base, sem checar as informações. No fundo, houve muito daquela história de não querer levar furo. Isso foi pretexto para se publicar qualquer suspeita, perdendo-se quaisquer critérios de objetividade. Essas coisas não colam e a população percebe o erro. A imprensa não pode achar que pega o povo pelo nariz e o leva para lá e para cá. É preciso ouvir o outro lado e não tentar fazer parte da luta política. A mídia está sendo julgada pelos leitores.

CM – Há 30 anos o senhor se chamava Luís Antonio Tovar, um dirigente comunista. Como Franklin Martins, hoje, se define politicamente?

FM – Não sou mais comunista. Continuo sendo um cara de esquerda e acho que o mundo precisa ser mudado. O mercado não muda o mundo. O que muda é a participação das pessoas e a luta. O Brasil pode ser melhor e a ação política reformadora é vital para isso.