A revolta do Tibete: tantas ilusões despedaçadas
Chen Yan*
Tradução: Isabel Bettencourt Janot
A irrupção da revolta do Tibete surpreendeu o mundo e, principalmente, deixou os governos ocidentais em uma situação embaraçosa. É difícil tomar medidas eficazes contra um gigante econômico em crescimento, como a China. Além disso, as múltiplas implicações da questão sino-tibetana parecem não esclarecidas. A revolta e as reações de Beijing são, no entanto, ricas em ensinamentos.
Desde o início, Beijing está empenhada em uma verdadeira guerra de informações contra o resto do mundo. A agência Chine Nouvelle e a CCTV dão uma única versão dos fatos e todas as mídias, inclusive a Internet, têm apenas o direito de repeti-la. Os órgãos encarregados da propaganda e o primeiro ministro Wen Jiabao se apressam em apontar o Dalaï Lama como instigador da revolta e em condená-lo.
Em um primeiro momento, tal fato pode ser visto como reflexo de um regime totalitário. Mas, na realidade, mostra que o black-out não é mais possível em crises como esta. Após o movimento das “Luzes”, entre os anos 1980 e 2000, e os inúmeros fóruns, debates e blogs na Internet, as autoridades chinesas não podem mais isolar a população, nem dentro nem fora do país, apesar de sistemas de controle e de censura extraordinariamente desenvolvidos. Também não são mais capazes de controlar o pensamento da população. Sendo assim, desistem de abafar a crise e correm o risco de ser ridicularizadas ao multiplicar acusações sem provas.
A revolta ocorre em um momento muito ruim para Beijing. Coincide com a realização da Assembléia Nacional, que antecede em uma semana as eleições presidenciais em Taiwan e em cinco meses os Jogos Olímpicos de Beijing. O simples fato de uma retomada da controvérsia sobre o eventual boicote suscita temores e angústias. Mas as conseqüências não param aí. Desde o massacre de Tiananmen, Beijing precisou de anos de esforço e perseverança para sair do isolamento internacional.
A partir deste século, convencido de seu crescimento exponencial, Beijing cuida de sua imagem, difundindo mensagens de conciliação e charme cultural para o mundo. Não espera apenas estabelecer poder sobre seu potencial econômico, mas também construir um império de soft power. Beijing se mostra cooperante ou complacente diante de casos internacionais como a crise da Coréia, a Birmânia ou até a crise humanitária no Darfur. Com esses esforços, quase constantes até agora, estava praticamente conseguindo fazer com que a verdadeira natureza de seu regime fosse esquecida.
Para uma parte dos empresários e dirigentes políticos ocidentais, a China se tornou um país normal, responsável e quem sabe até respeitável. Aliás, quem pode predizer que uma “ditadura respeitável” não constitui o primeiro passo para uma democratização futura? De fato, uma imagem positiva da China é muito conveniente. Omitindo a ditadura, é possível argumentar contra as críticas em matéria de direitos humanos na China e justificar a sua consciência, os seus interesses ou a sua inação.
Mas a revolta e a repressão dos tibetanos despedaçaram a ilusão. Para o poder em Beijing, a crise é muito cruel. Não apenas os anos de esforços em busca de respeitabilidade são aniquilados, como a convicção adquirida da “alta tecnocracia” é abalada. Convencidos do crescimento e de sua potencialidade, os tecnocratas de Beijing pensam nos seguintes termos: tudo pode ser calculado, tudo pode ser obstruído, tudo pode ser comprado. Incapazes de restaurar a sua legitimidade política por meio de uma reforma democrática, acreditam na tecnicidade, na sofisticação do sistema de censura, na repressão e na natureza cínica da humanidade. Exaltam o crescimento como modelo de sociedade.
A irrupção da revolta tibetana desmentiu essa convicção. Nem tudo pode ser resolvido com medidas técnicas, mesmo estando equipado com uma ferramenta de alto desempenho. Nem tudo se resolve com dinheiro ou repressão. A legitimidade política só pode proceder da adesão democrática.
Historicamente, as relações entre o Tibete e a China são complexas. Mas uma coisa é certa: a força de sinização que o povo chinês demonstrou ao longo de sua história milenar parece ter limites. Civilização originária do planalto de Loess (hoje o centro da China), a dinastia Han conseguiu estender a sua cultura por quase todo o território do Leste da Ásia. Mas essa sinização conheceu limites geográficos ou culturais. O Tibete constitui exatamente o símbolo desse limite.
O Dalaï Lama acaba de lembrar que para o Tibete permanecer no seio da nação chinesa é preciso conquistar, por vias pacíficas, o assentimento e a adesão do povo tibetano.
*Historiador e jornalista. Autor de L’éveil de la Chine (O Despertar da China) – Ed. l’Aube.
Publicado originalmente no www.ibase.br
Publicado em: 2008-04-12 por admin, última modificação em: 2009-04-23 por admin |