Os espertalhões e a CPI da Petrobras
José de Souza Castro
Em 1966, passei num concurso para auxiliar de escritório da Petrobras. Fui trabalhar na Central de Concreto da Refinaria Gabriel Passos, em Betim, que estava em fase final de terraplenagem. Meu chefe era um engenheiro, fiscal da concretagem da obra. Éramos uma equipe de três pessoas. A terceira era um auxiliar de serviço, que ficava observando se não havia erro na mistura de cimento, brita e areia que a empreiteira fazia na betoneira.
Foi com constrangimento que assisti, véspera de Natal, o dono da empreiteira chegando com presentes para nós três. Como meu chefe aceitou o dele cordialmente, talvez inspirado no espírito natalino, não pude recusar o meu – um corte de tecido para terno –, para não constrangê-lo mais ainda. Não muito tempo depois, fiz concurso para operador de utilidades da refinaria, e, após um curso de um ano na Cemig, fui trabalhar na subestação elétrica, sendo demitido em 1971 por não aceitar a opção pelo FGTS, no lugar da estabilidade no emprego, como exigia o presidente da estatal, general Ernesto Geisel.
O episódio vem-me à cabeça quando leio notícias sobre a CPI da Petrobras, no Senado.
Desde então, os presentes para fiscais e dirigentes da Petrobras talvez tenham crescido muito, proporcionalmente ao estupendo desenvolvimento da empresa. De minha parte, sei que não fui influenciado pela inesperada dádiva natalina. Espero que a CPI revele também que os atuais funcionários da Petrobras sejam igualmente honestos.
É por isso, embora leal com minha antiga empregadora, que não estou entre os que se opõem à CPI. Mesmo admitindo que a motivação dos que a propuseram não seja a que eles próprios propalam. Acho até que eles estão menos interessados no futuro da Petrobras e do próprio país e mais no estrago que a Comissão Parlamentar de Inquérito possa fazer na imagem do governo Lula e, por conseguinte, na próxima campanha presidencial do PT.
Há porém algumas questões que gostaria de ver esclarecidas, entre elas as citadas por Elio Gaspari, com quem trabalhei no Jornal do Brasil pouco depois de sair da Petrobras. Refiro-me ao artigo intitulado “Manual para vigiar a CPI da Petrobras”, publicado domingo passado (24/5/09) na Folha de S. Paulo. Lá se diz, por exemplo, que o preço da refinaria planejada para o Rio de Janeiro teria saltado de R$ 7 bilhões, quando anunciada em 2006, para R$ 26 bilhões agora. Ou o da Refinaria Abreu e Lima, de Pernambuco, que pulou de R$ 5 bilhões para R$ 22 bilhões.
Será verdade? Se for, revela no mínimo uma inexplicável desorganização. Não acredito muito em resultado de CPI, mas, quem sabe, pelo menos esses pontos sejam esclarecidos. Nem sou muito exigente em relação a uma outra denúncia da oposição, a de que o comando da estatal foi tomado de assalto pelo PT e seus aliados no governo, pois estes estão fazendo o que sempre foi feito na empresa, já estou acostumado com isso. Quando trabalhei na Petrobras, quem mandava não eram políticos da Arena, mas militares – e duvido que fosse melhor.
Mas Elio Gaspari conclui o artigo afirmando: “A Petrobras não é uma empresa corrupta, mas uma estatal onde há espertalhões. O melhor acervo para a sua defesa está no corpo técnico da companhia”.
Não é difícil concordar com isso. Espertalhões, os há em toda parte. É como bactérias (Leonardo Boff, há dias, disse que um grama de terra contém cerca de 10 bilhões de bactérias de 6 mil espécies diferentes). E o corpo técnico da Petrobras é reconhecidamente competente.
Por falar em corpo técnico e em espertalhões, lembrei-me de um artigo do presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobras, Fernando Leite Siqueira, publicado recentemente no site da associação e reproduzido em diversos blogs. Intitula-se “Os dez estragos de FHC na Petrobras”. Não vou reproduzi-lo e nem resumi-lo aqui, pois é fácil, aos interessados, ter acesso a ele no Google. Mas, como dizia, espertalhões são como bactérias.
Vou parar por aqui, pois não quero ter o mesmo destino de Paulo Francis, que sofreu um ataque cardíaco e morreu depois de ter sido processado nos Estados Unidos, em milhões de dólares, pelo presidente da Petrobras no governo Fernando Henrique Cardoso que se sentiu ofendido pelas críticas do colunista de O Globo à diretoria da estatal. Ao contrário de senadores do PSDB, jornalistas não têm imunidade.
05.2009
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Publicado em: 2009-05-27 por csouza, última modificação em: 2009-05-29 por admin |