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Promessas de BHObama e Operações Especiais
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14/5/2009


 Chico Villela

 O texto “Encruzilhadas de BHObama”, postado ontem na NovaE, talvez merecesse tratamento diferenciado com atualizações diárias. O governo BHObama acaba de chegar novamente a uma encruzilhada em que suas promessas e palavras entram em contradição com suas práticas. Como se trata de algo comum, que todo dia ocorre, fatos assim não deveriam ganhar destaque não fossem suas implicações de, em palavras claras, aumento das mortes de civis e da violência no novo cenário de guerra Af-Pak.

 Os fatos são: (a) o general Stanley McChrystal acaba de ser nomeado pelo secretário de Defesa Robert Gates para assumir o comando das forças dos EUA no Afeganistão, em substituição ao general David McKiernan; (b) BHObama, além de incorporar mais 20 mil tropas aos contingentes estacionados no Afeganistão, vai agregar às tropas milhares de civis para trabalhos junto à população, enfatizando mais o campo do desenvolvimento socioeconômico e menos o militar.
 
É compreensível que o governo queira corrigir a gigantesca distorção existente entre as intenções das palavras (democracia, liberdade, práticas políticas contemporâneas etc.) e o dos atos (bombardeios com milhares de mortos civis e pífios resultados militares, perda de controle sobre o território, apoio a forças e de forças corruptas ligadas às drogas, etc.). Mas a nomeação de McChrystal contraria essas intenções.
 
O general McChrystal passou os últimos cinco anos em missões relevantes para o regime Cheney-Bush. Sua estreita amizade com o ex-secretário de Defesa Donald Rumsfeld foi essencial para que o velho criminoso de guerra afastasse a CIA das chamadas ‘operações especiais’ e organizasse comandos que, acima até mesmo das autoridades militares locais, operassem ações contraterroristas no Iraque, Afeganistão e Paquistão, além de dezenas de países nos quais sequer se sabia das operações. McChrystal envolveu-se com o ‘dark side’, o lado escuro das operações militares: atos de terrorismo e sabotagem, assassinatos seletivos de lideranças ‘inimigas’, e amenidades similares.
 
Entre setembro de 2003 e agosto de 2008, McChrystal chefiou o Comando Conjunto de Operações Especiais (na sigla inglesa, JSOC), com direito a supervisão de unidades ‘de elite’ dedicadas a contraterrorismo e operações encobertas, entre elas a ‘Força Delta’ do Exército e as ‘Seal’ da Marinha. No texto da coluna de 1°/4, “BHObama e a rede de Dick Cheney”, aborda-se a história da rede de terror e assassinatos comandada diretamente pelo gabinete do vice-presidente do regime, e que operava acima dos comandos regulares das forças armadas e das representações diplomáticas do país. O comandante da rede durante cinco anos foi o general McChrystal.
 
A questão envolve duas formas de operação militar e duas concepções excludentes de atuação, que se revelam nas expressões ‘contraterrorismo’ e ‘contra-insurgência’. As operações contraterroristas implicam ações encobertas e ‘não convencionais’, identificação e ‘neutralização’ (prisão, tortura, eliminação, ou simples assassinato) de adversários e ‘inimigos’, buscas e invasões em domicílios, treinamento de tropas locais para combate: em suma, é um empreendimento essencialmente militar e quase sempre secreto. Já a contra-insurgência envolve ações dirigidas às bases sociais e econômicas em que o ‘inimigo’ recruta seus combatentes, implica a conquista da colaboração das populações e seu repúdio à adesão a grupos guerrilheiros e de combatentes, e sua ênfase é solapar o apoio ao terrorismo: em suma, é um empreendimento basicamente social a descoberto, em que o componente militar harmoniza-se aos interesses civis e diplomáticos de pacificação e desenvolvimento.
 
O historiador e repórter investigativo Gareth Porter, dedicado a temas de políticas de segurança, resume a contradição de BHObama: “A escolha de McChrystal certamente parece indicar a intenção da administração [BHObama] de continuar os ataques aéreos [das equipes] de Operações Especiais que vêm gerando crescente oposição entre os afegãos contra a presença militar dos EUA”. E agora engolfa-se o Paquistão na guerra geral. BHObama pode assim chegar a encruzilhadas sem saída.
 
Anotação a posteriori, 15/5: O jornalista investigativo independente e escritor Jeremy Scahill, em extenso artigo disponível em http://rebelreports.com, revela a ação atual de grupos especiais de tortura, nomeados Força de Reação Imediata, IRF, na prisão de Guantánamo, formados por cinco militares que agem em conjunto contra um prisioneiro. Especialistas de elevado conhecimento do seu ramo, são acionados em casos de prisioneiros resistentes, e cada um opera sobre uma parte do corpo da vítima. O arrepiante relato de Scahill demonstra a vacuidade do discurso de BHObama, que anuncia o fechamento de Guantánamo e a "proibição da tortura" para as arquibancadas louvarem seu espírito democrata e suas inclinações humanistas, mas sem eco nem reflexo sobre a realidade. Numa crise mundial como a de agora, o de que menos se necessita é propaganda de sabonete.
   
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 Publicado em: 2009-05-14 por chico, última modificação em: 2009-05-15 por chico

 

 

     

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