Man Booker Prize e a crise atual
José de Souza Castro
Surgiu um novo John Steinbeck, o premiado romancista dos Estados Unidos que retratou o drama de famílias de agricultores americanos atingidos pela Grande Depressão dos anos 30, que se seguiu ao crash das bolsas de valores. É o jornalista indiano Aravind Adiga, 34 anos, correspondente da revista Time na Ásia e que estudou nas universidades de Oxford e Columbia. Seu primeiro romance, The White Tiger ("O Tigre Branco"), foi declarado vencedor, no dia 14 deste mês, do prestigioso prêmio Man Booker, de 50 mil libras (87 mil dólares).
Em artigo publicado dia 20 por The Guardian, Madeleine Bunting lembra que há algumas semanas começou a especulação sobre como seriam as novelas sobre o atual credit crunch – uma crise criada pelos mais ricos do mundo e cujo mais alto preço será pago pelos pobres. Aparece então Adiga, para destruir o mito de que a hegemonia econômica dos Estados Unidos foi benéfica e tirou da miséria milhões de asiáticos. Pelo contrário, engolfou o mundo numa era de caos econômico maluco, e provocou, somente na Índia, uma média anual de 18 mil suicídios de fazendeiros endividados, somando 200 mil nos últimos 12 anos.
Num mundo em que vivem mais de um bilhão de pessoas, Adiga revela uma pobreza abjeta entrincheirada em favelas rurais e urbanas, enquanto uma elite surfa numa onda de consumismo e de crédito barato. Em Mumbai, onde o autor nasceu, está o segundo maior mercado mundial para os carros de luxo Mercedes, enquanto mais da metade dos indianos vivem na pobreza, sem ter o bastante para comer. O irônico, nesse drama, é que a Índia foi apontada, nas duas últimas décadas, como uma espécie de vitrine do sucesso da globalização.
Ou seja, de um modelo importado dos Estados Unidos, em que o crédito fácil e barato incentiva o consumismo para um quinto da população, enquanto se cortam os investimentos em saúde, educação, agricultura e infra-estrutura, exatamente aquilo que garante o crescimento sustentável de uma economia.
Madeleine Bunting sustenta que, como apontou na semana passada o presidente Lula, entre os que vão pagar o mais alto preço pela idiotice de um capitalismo financeiro desregulamentado pelos governos, estão os menos responsáveis pela crise. As ondas de choque da crise dos bancos ocidentais vão provocar o naufrágio dos países mais vulneráveis. No Reino Unido, o ministro da Imigração, Phil Woolas, já sinaliza para uma política mais rígida contra os que tentam fugir da miséria em seus países.
O medo da recessão global deprime os preços das commodities, e a fome nos países em desenvolvimento vai se espalhar. Bilhões de pessoas ficarão incapacitadas de alimentar e educar suas crianças. Vamos assistir a um drama mil vezes ampliado, em relação ao que escreveu Charles Dickens na Inglaterra no século XIX, então o país mais rico do mundo.
O egoísmo dos capitalistas é o mesmo que faz o pano de fundo nos romances de Dickens e no livro de estréia de Adiga. Aqui, o protagonista recorre a qualquer meio para conquistar o sucesso numa cidade grande, depois de abandonar uma vida sem futuro em sua vila cada vez mais pobre. O Tigre Branco, do título, é o empresário Balram Halwai, um “self-made man”, que descreve a Índia como sendo dois países: uma Índia da Luz e uma Índia das Trevas.
O presidente do júri que concedeu o prêmio a Adiga, Michael Portillo, diz que o autor tinha uma tarefa extremamente difícil: conquistar a simpatia do leitor para um herói que nada mais é que um vilão completamente desagradável, um homem corrupto financeira e sexualmente. Acrescenta que Adiga não refugou diante de temas que outros escritores evitam, incluindo a corrupção política na Índia.
Aos que o acusam de ter pintado um retrato negativo da Índia moderna, Adiga diz que queria escrever sobre todos os aspectos da sociedade indiana, que fez um esforço consciente para se ligar às pessoas por todos os modos imagináveis. No entanto, reforça, seu livro é uma obra de ficção, não um trabalho jornalístico. Nada de novo no front. Também Dickens e Tolstoi refizeram o mundo através de uma visão de circunstâncias reais. Mas Adiga não os cita entre os autores que mais o influenciaram, e sim Ralph Ellison e James Baldwin, autores que descreveram mundos desconhecidos de seu público.
Aravind Adiga é o segundo mais jovem romancista a vencer esse prêmio literário de ficção, o mais importante do mundo, criado há 40 anos. Antes dele, quatro escritores nascidos na Índia foram premiados: Salman Rushdie, Arundhati Roy e Kiran Desai. Outro vencedor, V. S. Naipaul, é descendente de indianos.
Nenhum brasileiro concorria com eles. Será por quê? Não sei se algum já venceu esse prêmio. (A esse respeito, o Google não é uma boa ajuda.) Como temos mais escritores do que livrarias, pelo que se diz, o que está faltando, talvez, seja uma realidade brasileira que se compare à indiana, do mesmo modo que os escritos de nosso maior romancista, Machado de Assis, nem de longe lembram os de Dickens – ou os de seu contemporâneo Tolstoi...
Uma crise anunciada
Não se pode alegar que a crise atual não tivesse sido repetidamente prevista. Num de seus livros, Bad Samaritans - Guilty Secrets of Rich Nations and the Threat to Global Prosperity, Ha-Joon Chang um sul-coreano que estudou economia em Cambridge, diz que o Ocidente se voltou para o mercado financeiro para ganhar dinheiro do modo mais fácil, e ofereceu aos países pobres e em desenvolvimento empréstimos a juros baixos, não para investimento produtivo, mas para o consumo. Usando a Organização Mundial de Comércio e o FMI, obrigaram os países asiáticos e outros a abrirem seu setor financeiro para os bancos ocidentais e as agências de publicidade, e o resultado foi um boom de crédito para o consumo, sem qualquer freio imposto pelos bancos centrais locais.
A maioria dos países em desenvolvimento acreditou ter aprendido, após a crise de 1997 e 1998, que o principal objetivo da gestão financeira seria garantir reservas suficientes para não ficarem novamente vulneráveis ao FMI. É por isso que Brasil, Índia, Coréia e China têm hoje reservas internacionais elevadas, sobretudo em papéis do Tesouro dos Estados Unidos, pagando por isso um alto preço – o de não poderem investir o capital em seu próprio desenvolvimento. Foi-lhes retirada uma escada que lhes permitiria a escalada para a prosperidade. O fato é que a globalização neoliberal se revelou apenas num sistema que garantiu ao rico se tornar mais rico e o pobre mais pobre.
10.2008
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*Ivan Moraes* IAMoraes@mac.com Inserido em: 2009-01-01 03:34:14
A palavra "corrupcao" nao chega sequer perto de descrever a India. A India eh podre de cima em baixo.
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