Não há outro jeito de ser sociável estes dias a não ser falando de futebol, Copa do Mundo, Ronaldinhos etc. Os condomínios e as ruas enfeitados preparam a festa dos churrascos, cervejas e emissoras de TV para confraternizar o orgulho nacional de ser o “país do futebol”, meses depois de celebrar o “país do carnaval”. Esse é o cenário principal da sociedade brasileira, prato cheio para as formas de mídia em geral, principalmente a comercial.

O que impressiona é a reinterpretação das mídias comerciais do gosto popular pelo esporte. O “país do futebol”, de repente, torna-se branco; a classe média alta sai de seus escritórios e desce do salto alto para compor a massa da “torcida brasileira”. As propagandas chamam a atenção pela representação da torcida: composta quase que exclusivamente por atrizes e atores brancos(as), com uma pequena exceção, vez ou outra, para confirmar a regra – preferencialmente, um(a) negro(a) com black power, sugerindo leve preocupação quanto à diversidade.

Quanta boa intenção. São imagens que não apenas contrastam enormemente com a cor e a condição social das grandes torcidas nos campos de futebol. Mas especialmente com a cor do time brasileiro, composto, majoritariamente, por pessoas negras.

Permanece em campo o que o sociólogo Ronaldo Sales chama, em termo bastante adequado, de inclusão perversa da pessoa negra na sociedade brasileira. Como objeto de “admiração” da grande torcida branca da sociedade de consumo, ali está o posto destinado ao sucesso do negro: o futebol. Citar Pelé como a demonstração de que não somos tão racistas é típico do racismo brasileiro. Assim como citar a “mulata Globeleza”. No andar dessa carruagem, estão Ronaldinhos, Robinho, Aline Aniceto e outros(as), desde que continuem com a bola no pé e a ginga – provocação sensual – no corpo. Enquanto isso, as propagandas de cartão de crédito ou das redes de postos de gasolina convocam a população branca a ser a cara do Brasil do consumo – as mesmas caras dos(as) poucos(as) brasileiros(as) privilegiados(as) em assistir de perto a Copa do Mundo da Alemanha.

Gostar de futebol não é o problema do país. O problema é usá-lo como escudo que impede a visibilidade das grandes desigualdades raciais, apesar de o futebol ser o maior exemplo da peculiaridade que o racismo assume entre nós. Já que é um esporte de prática simples, necessitando apenas de campinhos, praças, ruas etc, a meninada popularizou a bola de um jeito que, originalmente branco, o esporte se tornou negro no Brasil. Dos pés descalços e bolas arranjadas às chuteiras e bolas profissionais, o caminho se fez facilmente.

Esse modo de inclusão perversa construiu e sedimentou um discurso racista na base da pseudo democracia racial, restringindo e folclorizando a participação da pessoa negra em nossa sociedade. Como sonhou Gilberto Freyre, a sociedade branca de consumo continua a agradecer à população negra pela felicidade que lhe dá na cozinha, no carnaval e no futebol. Assim, das empregadas domésticas e “bás” das propagandas e novelas aos jogadores de futebol, o lugar da pessoa negra permaneceria resguardado para a manutenção dos locais raciais significados pela cultura racista brasileira. Em um modelo segregacionista tão sofisticado, desnecessário ter havido qualquer lei nacional que especificasse qual o lugar de negra(o) e o lugar de branca(o) no país (apesar de ter existido de modo dissimulado nos Códigos Penais e Constituições).

A denúncia desse racismo sofisticado brasileiro, no entanto, também está em campo. O movimento negro brasileiro cada vez mais se articula para garantir instrumentos legais, políticos e sociais de direitos, arregimentando alianças estratégicas no combate ao racismo. A luta é desigual: a maioria da população brasileira desconhece a discussão qualificada do Estatuto da Igualdade Racial, das ações afirmativas e das cotas. Ao mesmo tempo, a mídia comercial se utiliza dos meios de comunicação popularizados para fortalecer, mais e mais, as representações sociais da pessoa e população negra, cultivando os locais das raças e etnias, sofisticando a segregação e a discriminação e alimentando os preconceitos. Contudo, a população negra sempre soube reinventar, constantemente, sua resistência. E, assim, ela se fortalece.

Que a torcida pelo Brasil seja a torcida e luta de todas(os) pela igualdade. Essa é a única manifestação possível de um nacionalismo crítico.

*Advogada política e coordenadora adjunta do Observatório Negro