A idéia de que somos atravessados por forças e afetados pela qualidade singular de cada uma delas, torna-se evidente a cada percepção do presente, a cada sensação de estar sendo.

O mundo com lentes que se movimentam, com olhares que flutuam a cada realidade percebida. A vida como um verbo, a vida viva. Vida como um substantivo é vida morta, vida estagnada, vida sedentária com lentes mórbidas. A ausência de percepção do presente se dá aos habitantes de Gaia indispostos ao fluxo, seres que se apoderam de conceitos, racionalizam desejos, moralizam novos hábitos, adeptos dos padrões. Segundo Nietzsche este tipo de ser pode ser caracterizado como um tipo reativo, atravessados por forças reativas, forças conservadoras.

Sendo a realidade que nos atravessa uma composição de forças, qual a natureza das forças predominantemente atuantes? Considerando a mórbida manipulação de desejos que os habitantes de Gaia estão condenados a conviver fica evidente que são as forças reativas que predominam as relações. No mundo das forças reativas a ação causa estranhamento, visto que ação é criação – ação criada. Com os mesmos valores estabelecidos há 2000 anos atrás, a espécie humana perambula entre consumos e ambições de naturezas pequenas, entre crenças monoteístas e juízos de valores. O irônico é que são os seres que reproduzem valores os que mais julgam. Eis as forças reativas reagindo às forças ativas.

No universo das instituições – religiosas, estatais, acadêmicas, econômicas – verdadeiros monólitos paranóicos estagnados no tempo e no espaço – o “sedentarismo de valores” como forma de deter o fluxo, nada mais é do que um recurso previsível da manutenção do poder por ególatras autoritários, que no topo da hierarquia exercitam suas mórbidas relações de poder.

A manutenção do ego através das relações hierarquizadas é um recurso dos tipos reativos, dos seres de Gaia que não agem, portanto não criam. Dessa forma é natural que a tirania atue como “conta gotas de alegria para egos solitários”. Já os tipos ativos, atravessados por forças afirmativas, criam suas realidades e flutuando ao acaso dos encontros, criam valores e realidades. Só age quem cria sua ação, quem reproduz ações está reagindo. Criação de realidades, vida como obra arte, nada pronto, nada fixo, somente fluxos. Não há regras para que a criação se manifeste. Neste caso é o caos como soma de todas as ordens a condição propícia da criação. Realidades se criam a cada instante.

Eis a manutenção dos egos através da criação.

Tecnologia
Não há como falar de criação sem falar da tecnologia atravessando as realidades de Gaia. Manipulação de softwares, conhecimento técnico como condição da expressão. Criação de mundos, vidas artificiais, intervenções sonoras e visuais, experimentações, misturas e improvisações. A expressão do fluxo, tudo em eterna transformação, captura do instante, realidade mutante a cada intervenção tecnológica. Voltemos ao caos. Caos: ordem da desordem. A possibilidade de perceber a vida como fluxo constante, como realidades criadas a cada instante, é uma conquista da humanidade! A vitória das forças ativas. A partir de agora é criação constante. Habitantes de Gaia optam por suas realidades.

Alguns criam, outros reproduzem. Criar ação, criação. Reagir a ação, reação. Que a tirania das relações de poder hierarquizadas como conta gotas para egos solitários se desmaterialize em forma de criação, e a espécie humana perceba que somos composições de forças, que somos fluxos de afetos, seres que desejam, brilhos, anjos do caos eternizados a cada instante expressado.