Tensão, confrontos, incerteza e esperança. Esse é o clima em 21 colônias israelenses na Faixa de Gaza e em quatro na Cisjordânia que foram evacuadas na terceira semana de agosto. A retirada de 8 mil colonos desses territórios, denominada “Operação Mão Amiga”, iniciada pelo primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, pode ser o primeiro passo para a paz no Oriente Médio.

Israel invadiu a Faixa de Gaza em 1967, ao derrotar o Egito na Guerra dos Seis Dias. Embora o Conselho de Segurança da ONU tenha declarado a ocupação ilegal, foi adotada uma política pró-colonização que multiplicou assentamentos judaicos ao longo dos anos. A retirada é um marco histórico, que criou uma cisão em Israel: há uma maioria de 60% que defende a retirada, mas enfrenta dura oposição de grupos contrários à medida.

A saída de Gaza é a melhor notícia para a paz entre árabes e israelenses desde os acordos de Oslo, em 1993. Os tratados despertaram esperanças, mas terminaram em tragédia, com o assassinato do primeiro-ministro de Israel, Isaac Rabin, por um fundamentalista judaico contrário ao entendimento com muçulmanos. Em 2003, a pressão conjunta dos EUA, da União Européia, da Rússia e da ONU levou à formulação do precário “Mapa do Caminho da Paz”, que basicamente repete os termos de Oslo, embora preveja maior participação da sociedade internacional.

O principal defensor da retirada, o premiê Ariel Sharon, é uma das figuras mais controversas da política de Israel. Como ministro da Defesa na década de 1980, foi responsável pela invasão do Líbano e pelo apoio militar aos massacres que as milícias cristãs executaram nos campos de refugiados(as) palestino(as) de Sabra e Chatila. Em sua campanha eleitoral de 2000, Sharon visitou a Esplanada das Mesquitas, área que o povo judeu chama de Monte do Templo e é sagrada também para muçulmanos(as). O gesto do candidato enfureceu a população árabe, que o tomou como uma ameaça de anexação, e foi o estopim para a Segunda Intifada, a revolta do povo palestino contra a ocupação israelense.

O então presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, tentou mediar um novo acordo de paz, mas falhou. Seu sucessor, George W. Bush, governa no clima da “guerra contra o terror”, o que, na prática, significou carta branca para Sharon reprimir a população palestina a pretexto de combater a ação de grupos terroristas como o Hamas e a Jihad Islâmica. Sua medida mais polêmica foi a construção de um muro separando a Cisjordânia de Israel. O líder palestino Yasser Arafat passou a ser encarado como um estorvo. Após sua morte, foi eleito um novo presidente da Autoridade Palestina, Abu Masen, mais simpático aos Estados Unidos.

Contudo, nos últimos tempos, Sharon passou a colocar em prática algumas idéias da esquerda. Retirou as tropas israelenses do sul do Líbano, onde estavam desde 1982. E propôs a “desconexão”, ou seja, a retirada de famílias de colonos de Gaza e de parte da Cisjordânia. Analistas internacionais discutem por que o primeiro-ministro tomou a decisão, mas a causa mais provável é o alto custo econômico e militar para continuar mantendo a ocupação.

A medida de Sharon abriu margem para a ascensão de extremismos. Apesar de receberem indenizações de US$ 200 mil a US$ 500 mil, muitas famílias de colonos resistiram a deixar suas casas, argumentando que não podem ser expulsas de território conquistado por Israel. Consideram-se traídas e, as mais radicais, encaram a retirada como o próprio apocalipse. Consideram a operação um ataque à democracia e à identidade nacional. Acreditam que o povo palestino deve deixar Gaza.

A resistência não parte só de famílias de colonos judeus, mas também de árabes. Cerca de 3 mil palestinos(as) trabalham em Gaza para israelenses e temem por seu sustento, pois o desemprego é muito alto na região. Há também a questão de Dahania, aldeia de árabes que colaboraram com o governo israelense e que será desocupada. Seus habitantes têm medo de represálias por parte de compatriotas, que os(as) consideram traidores(as).

As implicações da retirada são incertas. Palestinos(as) se animam por enxergar nela o início de outras concessões de Israel. Contudo, o governo israelense afirma que manterá o controle das colônias judaicas na Cisjordânia. A cisão social pode implicar o crescimento da violência, com o fortalecimento de grupos radicais entre judeus e muçulmanos. A pior hipótese é a eclosão de uma guerra civil, probabilidade remota. Mas uma divisão do Likud, partido conservador que governa Israel, é quase inevitável. O ministro das Finanças e ex-premiê Benjamin Netanyahu renunciou ao cargo por se opor à retirada e desponta como o principal adversário de Sharon pela liderança do país.

Em meio à ruptura, como fica o processo de paz com o povo palestino? Em seu discurso de 15 de agosto, Sharon falou sobre a necessidade de acordos: “Gaza não pode ser mantida para sempre. Mais de 1 milhão de palestinos vivem lá e seu número dobra a cada geração. Vivem em campos de refugiados incrivelmente amontoados, na pobreza e na imundice, em barris de pólvora de ódio crescente, sem esperanças no horizonte”.

Sharon afirmou que receberá bem a mão pacífica da Palestina, mas que responderá fogo com fogo, mais rigidamente do que nunca. O primeiro-ministro se refere ao medo de muitos(as) israelenses de que terroristas do Hamas e da Jihad Islâmica usem a Faixa de Gaza como base para ataques. A Autoridade Palestina tem dois grandes desafios pela frente: conter extremistas e lidar com a economia em frangalhos após anos de ocupação e violência.