O que é a humanidade? O que a humanidade quer ser no próximo milênio? Como deve ser o cidadão de um Novo Mundo sem fronteiras? Qual o papel dos cientistas, filósofos e políticos no próximo século? Não ouso, obviamente, apresentar sequer um esboço de resposta. Mas, tenho certeza, posso afirmar que um número muito menor que o esperado de pessoas, têm pensado sobre o assunto. Seria isto uma medida de sua importância? Particularmente, não posso acreditar que seja o caso.

O mundo sofreu profundas transformações durante o século 20. Tivemos duas grandes Guerras Mundiais e inúmeros outros conflitos políticos e sociais localizados, mas não menos importantes. O grande desenvolvimento científico e tecnológico tem trazido soluções cada vez melhores para o futuro do planeta. Sob o ponto de vista puramente científico, aparentemente, este futuro está assegurado. O único grande obstáculo continua sendo o próprio homem, ou melhor, a postura filosófica do ser humano. Parece que o grau de prioridade das questões existenciais, as razões de ser do Ser Humano e os objetivos coletivos da humanidade estão, há muito, em segundo plano. Certamente os filósofos tratam do assunto, mas o debate é restrito. Vivemos em um Mundo ambíguo onde os objetivos de longo prazo se mostram cada vez mais importantes mas ao mesmo tempo são cada vez mais desprezados.

A princípio, pode parecer que estamos falando apenas de uma melhor distribuição de riquezas e uma maior justiça social. Naturalmente, estes aspectos são fundamentais para o futuro da humanidade. Entretanto, sob um ponto de vista mais amplo, isto seria apenas parte de algo muito maior. As possibilidades para uma raça humana com mais fraternidade e igualdade social, seriam infinitamente maiores que as atuais. Esta tese, com certeza, não é estranha. Pelo contrário, ela é certamente aceita por uma grande maioria de pessoas, independente de nacionalidade, ideologia ou religião. Neste caso, qual é o obstáculo? Por que o Mundo é como é e não como a maioria gostaria que ele fosse? Estará o modelo econômico mundial errado? Será a globalização um bom caminho? Devemos nos preocupar com o assunto, ou as coisas irão se acertar por si só? Talvez seja este o ponto. Talvez o único obstáculo seja exatamente a falta de um debate mais amplo sobre o assunto. A Economia, a Política e a Globalização são apenas vias. O que realmente conta é o modo como caminhamos por estas vias.

Conhecimento do erro
Ao mesmo tempo em que as distâncias do mundo moderno encurtaram, nossas preocupações com o momento presente cresceram. Temos muito pouco tempo para pensar no futuro. Quando o fazemos, pensamos apenas no nosso futuro particular. Esquecemos que nosso futuro está inexoravelmente ligado ao de toda a humanidade e do próprio planeta. Vale aqui uma observação de Aristóteles: “Se é possível prever o futuro, então não há nada que possamos fazer a seu respeito; se podemos fazer algo a respeito do futuro então não podemos prevê-lo”.

A decepção coletiva com o atual contexto mundial tem aumentado muito nestes últimos anos. Algumas vezes chegamos a pensar que o homem é uma raça falida. Entretanto, isto não faz sentido. Os erros particulares ou coletivos, passados e presentes, fazem parte de um processo de aprendizagem. Estamos provavelmente frente à conclusão de uma etapa. O choque de idéias e a velocidade com que isto está ocorrendo no mundo atual, é um forte indicativo da proximidade de alguma forma de colapso do sistema. Uma mudança no modelo atual do Mundo, possivelmente com o surgimento de uma nova atitude do homem frente a si próprio e frente à sociedade. É oportuno lembrarmos também o pensamento de Thomas A. Edson: “Eu não falhei! Apenas encontrei dez mil maneiras que não funcionam!”.

No Mundo atual, os modos que não funcionam são óbvios, tornando cada vez mais urgente uma mudança de rumos. Se é o conhecimento do erro, a condição primeira para a busca de soluções, já temos nosso ponto de partida.

A ciência e a tecnologia trouxeram, de fato, um enorme avanço para a humanidade. Infelizmente, um avanço que não se reflete na qualidade do meio ambiente e de vida para mais de um bilhão de seres humanos. Devido às pressões econômicas crescentes, as inovações estão se sucedendo em um ritmo, talvez, rápido demais. Possivelmente mais rápido que o permitido pelo rigorismo científico, pela estrutura psicológica do homem, cada vez mais ávido pelo poder, e pela delicada dinâmica do planeta. A pesquisa científica vem sendo transformada em produto de modo, um tanto quanto, precipitado. Isto é preocupante, não apenas no campo da genética, mas também em várias outras áreas das Ciências Aplicadas. Neste sentido, é grande a responsabilidade de cientistas, filósofos e políticos.

Ciência e Filosofia
A questão extrapola o âmbito da Ética Científica ou Filosófica. O problema envolve o próprio pensamento e metodologia científicos. Cabe perguntarmos: Qual é o maior comprometimento da Ciência? É com a própria Ciência e Sociedade ou com o Capital apenas? É óbvio que a pesquisa científica não pode prescindir de financiamento, em geral, bastante significativo. Entretanto, deve haver um equilíbrio de interesses. Este equilíbrio deve ser pautado por critérios rigorosamente científicos, caso contrário a Ciência deixa de ser Ciência para tornar-se um negócio como outro qualquer. Sendo apenas um negócio, a Ciência fica subordinada às leis do mercado, sabidamente desprovidas de uma racionalidade confiável. Além disto, é visível o desequilíbrio de investimentos e interesse entre Ciência Aplicada e Ciência Pura (incluindo Filosofia da Ciência). Dentro da própria Ciência Aplicada, os investimentos têm se pautado mais por critérios financeiros que científicos. No médio e longo prazos, o resultado líquido deste desequilíbrio pode ser completamente imprevisível e indesejável.

As políticas de desenvolvimento técno-científico, nunca foram, como de fato não devem ser, responsabilidade de cientistas. Contudo, torna-se cada vez mais evidente, a necessidade de um posicionamento político melhor definido e coerente da comunidade científica. O conhecimento não pode, para o bem da própria humanidade, ser reduzido à um mero produto de consumo. Isto é ilógico e anti-científico. Urge que as iniciativas já existentes neste sentido sejam intensificadas e amplamente divulgadas. Parece também hora para uma reaproximação da Ciência com A Filosofia. A pulverização, inevitável e talvez até desejável, do conhecimento, precisa ser compensada de algum modo. A compensação óbvia para isto é a consciência do coletivo. Do contrário perde-se a dimensão de Mundo e Humanidade, comprometendo o futuro