Caetano Veloso definiu, não pioneiramente mas com ironia e perspicácia ímpares, o hábito intelectual persistente entre nós de separar e até opor a expressão estética, literária, pictórica, musical, ou o que se entende por arte, ao que se entende por pensamento, ou seja, filosofia e ciência. A este equívoco equivale a oposição entre “nacional “ e “universal”. “Se você teve uma idéia incrível _ canta Caetano _, faça uma canção. Está provado que só é possível filosofar em alemão”.

A origem desse conceito está projeto da Modernidade enquanto modo de vida e produção social, que data dos séculos XVI-XVII, o qual se fundamentou nas oposições entre sujeito e objeto (Descartes), natureza e cultura, racional e irracional, letrados e analfabetos, centro e periferia, nós e eles, colonizador e colonizado, nacional e estrangeiro, seriedade e riso, progresso-atraso etc. Oposições mais antigas _ cristãos e não-cristãos, homens e mulheres, corpo e alma _ contribuíram para reforçar essa perspectiva. Esse projeto se expandiu pela imposição econômica, política, militar, cultural e retórica, pela assimilação/tradução pela cultura moderna dos projetos e formas gerados fora do eixo da modernidade européia.

Durante o século XX emergiu uma tendência de crítica aos princípios oposicionais que fundamentaram a Modernidade. O exemplo mais marcante dessa tendência talvez seja a substituição da ‘razão’ pela ‘linguagem’ na explicação dos fenômenos, o qual teve início na segunda metade do século XIX. Essa substituição foi perpassada pela consideração do “irracional”, da estética das culturas “primitivas” e/ou “periféricas”, do “oculto” e do contingente. As chamadas vanguardas do século XX, na Europa, não apenas se inspiraram no conhecimento dito periférico como buscaram neste conhecimento “modos de agenciamento das formas”.

O desejo e a necessidade contemporâneos de construir conhecimento sobre os processos e as relações levam à busca de conceitos e métodos que expressem os conflitos, mestiçagens e ambigüidades envolvidas na construção da Modernidade. A história da Europa e do mundo moderno não podem ser entendidas sem a história do Novo Mundo, a história da ciência e das idéias não pode prescindir do aparato retórico utilizado para mundializá-la nem, principalmente, do conhecimento gerado em outros contextos.

Se há um reconhecimento quase unânime do que foi dito no parágrafo anterior pelas chamadas elites intelectuais _ até porque tais enunciados se fazem pelos teóricos das universidades européias e norte-americanas e pelos nomes importantes da indústria das idéias _, tal reconhecimento não se traduz numa prática de produção intelectual nem em políticas para o conhecimento que rompam com a cadeia produção-consumo. O fundamento ideológico que guia a produção intelectual e a atuação política das elites acadêmicas e intelectuais ainda é, via de regra, o que propõe a primazia do conhecimento produzido no “centro”. Segue a vigorar, como pressuposto, a noção de que não podemos filosofar em português, ou seja, de que não somos capazes de construir teorias, instrumentais, métodos e paradigmas, mas apenas “objetos” e “fenômenos”.

Essa noção ainda impera nas universidades, na imprensa e no chamado mercado de comunicação e cultura, delimitando políticas, estratégias e iniciativas. Temos nos mostrado pouco capazes de inovar, por exemplo, nas narrativas audiovisuais. Só para ficar num caso, enquanto Spike Lee propõe uma narrativa capaz de aportar uma configuração original das realidades, nossos mais aclamados cineastas atuais contentam-se em alojar, na narrativa linear de Hollywood ou das novelas da Globo, os temas mais candentes de nossa vida “nacional”, transformados em produtos para consumidores de cultura no mundo todo.

Tivemos Gláuber e outros, é certo. Mas é a exceção, e sobretudo o modo como é entendida, que confirma a regra. Tivemos “exceções” notáveis em quase todos os campos. O modernismo latino-americano foi uma proposta de “gerenciamento das formas” e não um subproduto das vanguardas européias. Tivemos Cesar Vallejo, Vicente Huidobro, Lezamma Lima, que pensaram em conjunção, como diz Amálio Pinheiro, os fatores históricos, lingüísticos, geográficos e culturais. Tivemos Euclides e Gilberto Freyre, escritores que se valeram simultaneamente, parodiando o próprio Freyre, da ficção e da ciência para dar corpo a métodos, instrumentais e paradigmas para a cultura e a sociedade, na tensão com o cientificismo e o elitismo, tão combatidos quanto presentes e que atam as Humanidades ainda hoje.

Temos Caetano, que filosofa, sim, em português. “Está provado que só é possível filosofar em alemão” remete a um conceito profundamente enraizado, produto de uma bem sucedida estratégia que já dura 400 anos, segundo o qual o método e, portanto, a “verdade” é produzida no “Centro”. A ironia, a cantoria e a poesia aparecem aqui, portanto, e na contramão do conteúdo, como um método rigoroso de análise.

Temos também, e isso é agora extremamente relevante, uma riquíssima tradição de conhecimento que se vale da mescla de linguagens e culturas, da não-linearidade, de práticas coletivas e colaborativas do conhecimento, das imagens e dos signos. Se tal tradição serve para alimentar idéias de teóricos e produtores culturais dos chamados “centros”, cuja obra, na lógica do mercado de cultura e comunicação, nos chega como produto a ser consumido e como padrão de conhecimento e descrição das realidades, pode muito bem nos servir para criar teorias, métodos e paradigmas. Mais do ainda: pode ser um meio para incluir na cidadania e na dinâmica da economia, por meio da cultura e da comunicação, uma grande parcela de nossa população.